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Outro dia fui ao Pie in the Sky. Trata-se de uma casa de tortas inglesas, feitas por um inglês, Richard Preen, e sua esposa brasileira e gravidíssima Ana Claudia Laforga. Nas últimas semanas, o lugar ganhou todas as páginas de suplementos de gastronomia, o que indica excelente receita ou excelente assessoria de imprensa, das duas, uma.
Como a Inglaterra não é nada famosa por sua gastronomia, apesar de seus chefs-celebridade, eu andava desconfiando que tinha um colega jornalista fazendo o dever de casa, e só. Mas fui conferir.
Pra começar, a casa coloca o cardápio completo no site, com preço e tudo, o que é uma maravilha. Você vai bem avisadinho do quando vai gastar. E já pode ir pensando nas opções, ideal para indecisos.
Comecei por uma Steak & Stout, torta recheada de carne cozida na cerveja preta, e terminei com a Death by Chocolate, com massa de canela e recheio preto feito alfalto, forte feito café, bom feito uma torta de chocolate cheia de chocolate.
Saí passando mal de tanto comer, com uma conta extremamente razoável e muita vontade de dar meia volta e provar o crumble de ruibarbo, que andava em falta. Em breve…

Também no Apetite

Eu estava cansada das cantinas. Elas são uma instituição forte em São Paulo, as cantinas. Ali no Bexiga (que aliás é o apelido do bairro Bela Vista, sabia?) dominam as paisagens, disputam os transeuntes, atraem os turistas desavisados com seu cheiro bom e barulho exagerado.

Eu, neo-paulista que sou, achei melhor conferir logo o fenômeno. Fui a duas cantinas, comi bastante, ouvi tarantella e bandejas sendo jogadas no chão de propósito, paguei mais caro do que gostaria, dei o proceso por encerrado. Com uns seis meses de São Paulo, eu estava cansada das cantinas.
Aí chegou em casa o Especial Comer e Beber da Vejinha paulista, com capa brilhante e tudo. E vi, no meio de trocentos restaurantes, um chamado Pasquale, que me ofereceu comida de Puglia a preços módicos. Optei por ignorar o fato de que a casa tinha levado o título de melhor cantina, e fui, em pleno sábado após a premiação.
Tinha fila de espera na chuva, claro. Mas logo arranjamos um cantinho no bar, nos abastecemos de vinho e antepastos deliciosos e esperamos mais alegres, entre tintins, abobrinhas grelhadas e uma burrata com centro indecentemente cremoso. Com tempo, deu até pra reparar no teto do restaurante, todo coberto de rolhas de vinho enfileiradas, um trabalho danado que dá efeito idem e abafa o som do conversê.
Enrolei orechiette em queijo de cabra durante a refeição, e me lembrei da minha casa-relâmpago lá em Lecce, Puglia, onde a mãe da minha anfitriã abria macarrões em forma de orelha com pedaços de arame.
Nem precisava, mas ainda tinha sobremesa. E jamais houve sobremesa como aquela. Um bolo de chocolate com recheio e sorvete de damasco que devia ser simples e bobo, e é uma fonte de alegria que vem durando até hoje, e já estamos na quarta.
Êita cidade complicada essa São Paulo. Quando a gente acha que acabou, tem mais. E com tanta novidade, que horas a gente volta na nova cantina preferida?
Também no Apetite

No fim de semana voltei no Mocotó e pude provar duas coisas que tinha deixado pra trás na primeira visita. Uma foi o atolado de bode. Nham. A carne de cabrito, macia, casa perfeitamente com o aipim cozido. E o caldinho é daqueles que te faz querer um pão e uma rede.

Bom, a outra ineditice foi ver o chef Rodrigo Oliveira na cozinha. Rodrigo é o novo queridinho da cena paulista. Só não aparece mais que Alex Atala porque… bom, Alex Atala é Alex Atala. Mas foi eleito na categoria Bom e Barato nas seleções O Melhor de São Paulo da Folha e da Veja. E está semanalmente em pelos menos um guia daqui.
A overdose de Rodrigo se deve principalmente a seu trabalho bem feito de emagrecer o antilight cardápio sertanejo. Mas não se pode ignorar o fato estético. E não, não tô falando do escondidinho ou do sorvete de rapadura. Olha essa foto aí do moço e depois a gente conversa. De preferência tomando suco de cajá lá no Mocotó.

 

Atolado de bode (receita do chef pra Folha)
Rendimento: oito pessoas
 
Ingredientes
Para a marinada
- 1/2 cabrito em pedaços pequenos (peça ao açougueiro)
- 6 dentes de alho amassados
- 1/3 de xícara (chá) de azeite
- 3 colheres (sopa) de vinagre de maçã
- 3 colheres (sopa) de cachaça
- 2 folhas de louro

 

Para o cozimento
- 2 cebolas picadas
- 1 pimentão grande em rodelas
- 1/3 de xícara (chá) de extrato de tomate
- 4 xícaras (chá) de caldo de carne
- 1 colher (chá) de cominho
- 1 colher (chá) de colorau
- 1 colher (café) de semente de coentro
- Sal e pimenta-do-reino a gosto
 

 

Passo a passo
1- Junte o cabrito aos ingredientes da marinada e deixe-os por uma noite na geladeira.
2- Aqueça uma panela de fundo grosso, coloque um fio de azeite e doure a carne uniformemente. Reserve.
3- Na mesma panela, acrescente a cebola e o pimentão e deixe até amolecer. Junte o extrato de tomate e refogue até caramelar levemente.
4- Retorne a carne, os temperos, o líquido da marinada e adicione o caldo até a altura de 2/3 da carne. Cozinhe lentamente até a carne ficar macia, quase soltando do osso.
5- Sirva com mandioca cozida, tomate-cereja, cebola-pérola, cheiro-verde e molho. Finalize com um fio de azeite.
Também no Apetite

Quando você ouve falar de uma comida nova duas vezes na mesma semana, é hora de prová-la. E quando você ouve alguém martelando na sua cabeça sobre uma comida nova duas vezes por semana, toda semana, passou da hora. O Sandro, da pós, vem elogiando as propriedades restaurativas do lámen há tempos, e finalmente ele e outros coleguinhas me arrastaram até à Liberdade (pausa para apreciar esse comentário: arrastar alguém até a liberdade…).
O lugar do lámen, segundo recomendava a Paula, era o Porque Sim. Restaurante embaixo e karaokê em cima, e com um nome desses? Aí disse Paula que o dono, quando perguntado do porquê do nome, respondia um “por que não?”. Já gostei.
Fomos atendidos por um faixa preta em defesa pessoal, que anotou nossos lámens em seu caderninho e aprovou nossa inclinação pela cabeça de alho frito com pasta de soja.
Logo eu tinha uma bacia fumegante de sopa com macarrão e coisinhas coloridas embaixo do meu nariz, além de hashi e concha de madeira pra atacar. Amor à primeira colherada. Trata-se de um caldinho de shoyu ou missô com macarrão, algas, ovo cozido e fatias de lombo e de peixe prensado branca e rosa, batizada kamaboko. Quentinho e saboroso, o lámen espanta o frio e a lembrança de que alguma coisa feia ou injusta existe nesse mundo. E sem a costumeira facada final tipicamente paulista que te arranca dessas sensações boas: a conta no Porque Sim é inversamente proporcional ao tamanho do tigelão de lámen saboreado.
Como se não bastasse, a casa inda conta com um programa de fidelidade. Cada prato vale um ponto, e quanto mais pontos, melhores os prêmios. Tô de olho numa churrasqueira elétrica. E com a cabeça mergulhada naquela bacia de caldinho restaurativo. Se eu volto no Porque Sim? Por que não?

Também no Apetite

Ao descobrir a existência da rua Bartolomeu Feio em São Paulo, sabendo que existiam as ruas Purpurina e Csa do Ator, resolvi olhar melhor os mapas da cidade. E descobri cada coisa… Confira algumas preciosidades:

Travessa Canção Excêntrica – Campo Belo
Rua da Música Aquática – Jardim São Luís
Rua Reinado do Cavalo Marinho – Cidade Tiradentes
Rua Peixe-vivo – Socorro
Rua Pinto da Luz – São Lucas
Rua das Variações Musicais – Jardim Ângela
Rua Neve na Bahia – José Bonifácio
Rua Balada – Itaquera
Rua Tempo Reverso – Lapa
Rua Viagem ao Céu – Saúde
Rua Erva Cidreira – São Domingos
Rua Águas de Março – José Bonifácio
Travessa Aniz Doce – Capão Redondo
Travessa Maravilha Tristeza – Raposo Tavares
Travessa Marvin Gaye – Perdizes

O Iguatemi  revela-se um campo promissor para tais criatividades, com as travessas Gracias a la Vida, Paz na Terra, Primeiro Amor, Sonho de um Carnaval e Na Paz do Seu Sorriso.

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Mas o verdadeiro campeão é o bairro de Jabaquara, que além das travessas  dos Nomes Mágicos e Embalo da Canção, tem o nome de rua mais inacreditável de todos os temos. Tão incrível que eu tive que ir confirmar. E existe mesmo, senhoras e senhores, a rua Borboletas Psicodélicas!

Para continuar a diversão, vá ao site Dicionário de Ruas.

O Nordeste vem comendo São Paulo pelas beiradas. Uma gente de mala, cuia e sorriso contagiante chega de mansinho faz tempo, e vai se instalando, espalhando sua fala cantada por aí, incrementando os cardápios com suas iguarias deliciosas. Aliás, é na cozinha que os nordestinos andam fazendo mais bonito.
Restaurante que se preza tem representante do Nordeste picando, salteando, empratando. E conversando, claro. Foi de uma cozinha dessas, onde trabalha também uma colega, que saiu um dos verbos mais divertidos dos últimos tempos: curiar. Diz o Dicionário Informal que curiar é de curioso, é atentar, observar, até bisbilhotar. Interessante que só. Afinal, sem curiar a gente não evolui. Ponto pro Nordeste.

Como assunto é o que não falta, temos aí à direita outros sites e blogs que também falam de São Paulo. Das reclamações às árvores, passando pelos programas gratuitos (oba!), esses companheiros desconhecidos exploram a metrópole e deixam nosso dia a dia mais divertido. Ou, pelo menos, tentam. Não deixem de conferir.

Nesta quarta, dia 8, a comunidade judaica se reúne em um ritual raro. Além de começar a comemorar o Pêssach, que é sua Páscoa, será hora de abençoar o sol. A cada 28 anos os judeus realizam uma benção especial para celebrar a volta do sol à posição em que nasceu, no quarto dia da criação do mundo, há 5.769 anos judaicos.
É às 8h, é na Praça Charles Miller e é lindo. Tomara que eu consiga acordar cedo pra comemorar também. Será a segunda celebração do ano que esperou 28 anos pra acontecer…

Muito legais os mapas de atrações nas diferentes regiões de São Paulo que a Vejinha tem. Tem de comer, de ver, de comprar e de passear. Para o da zona sul, clique aqui. Mas eu prometo olhar os mapas de todas, e depois ir conferir ;o)

São Paulo é tão grande, mas tão grande, que me dá a impressão de que vou demorar um milhão de anos para conhecer tudo. Imagina só que eu mal descobri o que tem na zona sul, ainda faltam a leste, a oeste e a norte…
O que me consola, entre aspas, é que é assim pra muita gente. Como tudo fica tão longe, a tendência é cada um ficar no seu quadrado, morando, trabalhando, estudando e se divertindo na mesma zona, sem se aventurar pelos bairros vizinhos dos vizinhos. E, óbvio, sem saber o que está perdendo.
Outra dia o pessoal da pós (estou fazendo pós, sabia? Gastronomia: Vivências Culturais. Divertidíssimo) inventou de cruzar a cidade para conhecer o Mocotó, restaurante de comida sertaneja eleito o melhor custo-benefício pela Veja e com chef premiado. O endereço dizia Vila Medeiros, zona norte, e parecia tão misterioso e distante quanto Nárnia.
Uma hora e meia de trânsito e novas paisagens, chegamos num desses bares com balcão, prateleiras repletas de cachaça e cardápio recheado de opções e preços honestíssimos. Soube lá que o lugar tem 35 anos, e no início o Seu Zé vivia de alimentar os boêmios locais com  seu caldo substancioso de mão de vaca, entre uma dose e outra de cachaça. Há uns cinco anos Rodrigo Oliveira, o filho, formado nas artes da gastronomia, emagreceu os pratos e virou sucesso de público (muito público) e crítica.
Não houve uma coisa comida que ficou no mais ou menos. Tudo, mesmo – do caldo que batizou a casa, passando pelo baião de dois e a carne de sol grelhada, o aipim (mandioca?) honrando seu apelido de “manteiga”, e as sobremesas surpreendentes, como sorvete de rapadura com calda de catuaba e musse de chocolate com cachaça – estava uma delícia. E quase tudo tem porções em tamanhos diferentes, assim dá pra comer pouquinho ou muitão de cada prato, à escolha do freguês.
Como se não bastasse a qualidade dos mata-fome, a casa ainda oferece uma lista enorme de sucos diferentes (cajá, graviola, hum…) e mais de 300 cachaças, incluindo um licor criação própria que mistura pinga envelhecida com favas de baunilha.
Fica alição: é hora de se aventurar pelas zonas. Tem cantinho demais nessa São Paulo escondendo delícias acessíveis. É só procurar.

PS – Esse texto é dedicado aos coleguinhas feios, bobos e caras de melão da pós que não foram. E ao também coleguinha Sandro, que descobriu relação entre o texto da aula e as sobremesas disputadas a colheradas

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